O Simbolismo foi o movimento literário
iniciado na França e que teve sua primeira aparição em Portugal no ano de 1890,
com a publicação de Oaristos, de
Eugênio de Castro. Na época uma onda científica e tecnológica se fortificava na
Europa, sendo que os autores desse período eram movidos tanto em oposição à
objetividade seca do Realismo quanto em oposição ao desenvolvimento que excluía
parte grande da sociedade, de forma que as obras literárias simbolistas tentam
resgatar a chamada totalidade humana de forma espiritual, que fora esquecida
pelo materialismo da burguesia.
Grandes nomes do movimento foram Eugênio de
Castro, Camilo Pessanha e Antônio Nobre, cujas poesias imortalizadas carregam
figuras de linguagem e o clima melancólico marcante da literatura dessa época,
mostrando claramente o que foi o Simbolismo na arte escrita.
Em Amor
Verdadeiro, poema de Eugênio de Castro, o eu poético inicia já a primeira
estrofe falando sobre a frieza da pessoa amada e da incapacidade de esquecê-la,
alegando, em seguida, sua servidão não recompensada, mas fiel. Ao final ele
ainda assegura que sabe nunca poder possuir a mulher amada, mas que esse é o verdadeiro
amor, pois quem ama com chances de possuir o que quer, não tem o amor colocado
em prova. O poema possui dois quartetos e dois tercetos, forma clássica do
soneto, muito valorizado pelos poetas do Simbolismo. Também a entonação
musical, característica simbolista, é ressaltada por Eugênio nas rimas
esquematizadas em ABBA//ABBA//CCD//EED, o que aumenta o tom delicado e submisso
do sujeito. A situação relatada expressa um gosto singular pela melancolia do
sentimento de amar, a dor das coisas mais importantes da vida e o pessimismo
humano.
Camilo Pessanha, no poema Crepuscular, o mais famoso de sua obra,
também carrega seus versos de melancolia amorosa. O eu poético tem um contato
íntimo com a natureza à sua volta, descrevendo as flores, as aves, e o clima
sombrio e de cansaço que o casal sente no ar, envolvidos pelo crepúsculo que
sempre fora tão poético, romântico e triste ao mesmo tempo. Nos versos finais
também conta o quanto sua amada é delicada, de aparência adoentada e feminina,
o que era muito presente no Romantismo e que é resgatado nesse momento, de
forma que, mesmo tendo a mulher em seus braços, ainda assim seu existir é sombrio,
e o amor desperta sensações que outrora pareceriam negativas. São quatro
quartetos rimados em ABBA//CDDC//EFFE//GHHG, que de forma musical e figurativa contrapõem
elementos que inspiram felicidade e tristeza, e também a busca por um
complemento quase que espiritual das sensações do momento que não é somente
físico, mas também transcendente.
Outro soneto de Eugênio de Castro é Numa das margens do saudoso rio, em que
o sujeito, não definido se feminino ou masculino, conta a experiência que
passou estando em uma margem de um rio observando a outra, vendo como parecia
mais bela e agradável. Na outra margem parecia não haver as amarguras da vida,
a velhice e o escuro, então o eu poético atravessa a ponte e chega ao lugar tão
cobiçado para, entretanto, viver a realidade dali e ter uma melhor vista de
onde estava anteriormente, percebendo que havia saído da margem mais bela
daquele rio. No final do poema ele se arrepende e tenta voltar, mas a ponte
havia sido destruída e não havia mais como fazê-lo. Tais versos, com o esquema
rimático tão admirado por Eugênio de Castro ABBA//ABBA//CCD//EED, usa a
situação das margens de um rio como metáfora para as situações da vida em que
as pessoas não valorizam o que têm, lutam pelo que parecem querer e perdem o
que é de real valor. Trata-se de uma busca pelo que é realmente importante,
muito presente nas classes menos favorecidas da troca do século XIX para o XX,
antimaterialistas e mais espiritualistas, busca essa tratada de forma indireta,
apenas sugestiva, pois na literatura da época acreditava-se que a realidade não
poderia ser absolutamente retratada com fórmulas feitas, mas sim sugerida e
instigada.
O Enterro
de Ophelia, poema do também ilustre português Antônio Nobre, trata de outro
tema romântico retomado no Simbolismo, a morte. Os primeiros versos contam que
Ophelia morreu afogada em um rio e que seu enterro é silencioso, ladeado de
árvores e com padres orando. Também fala de suas vestes brancas e de como irá
para um convento diferente do qual ninguém retorna, cena adornada pelo
enfraquecimento do sol e chegada da lua, que agora será madrinha da mulher,
pois o ar noturno expressa melhor a morte. No poema a citação dos padres, do
convento e de ninfas, mostra a religiosidade simbolista, o contato racional com
o espírito e a dualidade entre o físico e o metafísico. Em forma de soneto, com
rimas ABAB//ABAB//CDC//EDE, usa figurações diversas para explicar esse momento
fúnebre, principalmente dando vida a seres inanimados como o sol, a lua e os
choupos, de forma que o sujeito vivencia e reflete profundamente sobre a morte
em contraste com a vida.
Dessa forma, Eugênio de Castro, Antônio nobre
e Camilo Pessanha deixam bem claro o que foi o Simbolismo, utilizando
composições poéticas e carregando seus versos de musicalidade, de forma que a
leitura flui de forma agradável e mais envolvente. Com suas prioridades
voltadas às questões humanas da vida, da morte, sentimentos e sonhos,
utilizando artimanhas sintáticas e despertando os sentidos humanos,
imortalizaram a literatura do Simbolismo em Portugal, representando o povo
europeu em uma sociedade desigual e exclusiva, que buscava sobreviver à euforia
tecnológica materialista e que se opôs ao estilo pouco delicado e
excessivamente objetivo dos movimentos artísticos anteriores. Dessa forma o
Simbolismo foi a voz dos oprimidos de uma época injusta, foi a voz do coração
apaixonado, do deprimido e, pode-se dizer, a voz do espírito que havia sido
esquecido e de todo o universo em contato poético com o ser humano.
Referências
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o texto literário e os sues usos no cotidiano escolar universitário. 2010. Disponível
em
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LONDERO, Maria Isabel. Entrecruzar de fronteiras, na obra A rosa do Povo, de Carlos Drummond
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MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 27ª edição. Editora
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eugenio-de-castro.html>.
Acesso em 20 de outubro de 2013.
ENTERRO do
Ophelia. Disponível em <http://www.citador.pt/poemas/enterro-de-ophelia-antonio-nobre>. Acesso em 20 de outubro de 2013.
CREPUSCULAR.
Disponível em <http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v151.txt>. Acesso em 20 de outubro de 2013.
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