quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A poesia do Simbolismo em Portugal

            O Simbolismo foi o movimento literário iniciado na França e que teve sua primeira aparição em Portugal no ano de 1890, com a publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro. Na época uma onda científica e tecnológica se fortificava na Europa, sendo que os autores desse período eram movidos tanto em oposição à objetividade seca do Realismo quanto em oposição ao desenvolvimento que excluía parte grande da sociedade, de forma que as obras literárias simbolistas tentam resgatar a chamada totalidade humana de forma espiritual, que fora esquecida pelo materialismo da burguesia.
Grandes nomes do movimento foram Eugênio de Castro, Camilo Pessanha e Antônio Nobre, cujas poesias imortalizadas carregam figuras de linguagem e o clima melancólico marcante da literatura dessa época, mostrando claramente o que foi o Simbolismo na arte escrita.
Em Amor Verdadeiro, poema de Eugênio de Castro, o eu poético inicia já a primeira estrofe falando sobre a frieza da pessoa amada e da incapacidade de esquecê-la, alegando, em seguida, sua servidão não recompensada, mas fiel. Ao final ele ainda assegura que sabe nunca poder possuir a mulher amada, mas que esse é o verdadeiro amor, pois quem ama com chances de possuir o que quer, não tem o amor colocado em prova. O poema possui dois quartetos e dois tercetos, forma clássica do soneto, muito valorizado pelos poetas do Simbolismo. Também a entonação musical, característica simbolista, é ressaltada por Eugênio nas rimas esquematizadas em ABBA//ABBA//CCD//EED, o que aumenta o tom delicado e submisso do sujeito. A situação relatada expressa um gosto singular pela melancolia do sentimento de amar, a dor das coisas mais importantes da vida e o pessimismo humano.
Camilo Pessanha, no poema Crepuscular, o mais famoso de sua obra, também carrega seus versos de melancolia amorosa. O eu poético tem um contato íntimo com a natureza à sua volta, descrevendo as flores, as aves, e o clima sombrio e de cansaço que o casal sente no ar, envolvidos pelo crepúsculo que sempre fora tão poético, romântico e triste ao mesmo tempo. Nos versos finais também conta o quanto sua amada é delicada, de aparência adoentada e feminina, o que era muito presente no Romantismo e que é resgatado nesse momento, de forma que, mesmo tendo a mulher em seus braços, ainda assim seu existir é sombrio, e o amor desperta sensações que outrora pareceriam negativas. São quatro quartetos rimados em ABBA//CDDC//EFFE//GHHG, que de forma musical e figurativa contrapõem elementos que inspiram felicidade e tristeza, e também a busca por um complemento quase que espiritual das sensações do momento que não é somente físico, mas também transcendente.
Outro soneto de Eugênio de Castro é Numa das margens do saudoso rio, em que o sujeito, não definido se feminino ou masculino, conta a experiência que passou estando em uma margem de um rio observando a outra, vendo como parecia mais bela e agradável. Na outra margem parecia não haver as amarguras da vida, a velhice e o escuro, então o eu poético atravessa a ponte e chega ao lugar tão cobiçado para, entretanto, viver a realidade dali e ter uma melhor vista de onde estava anteriormente, percebendo que havia saído da margem mais bela daquele rio. No final do poema ele se arrepende e tenta voltar, mas a ponte havia sido destruída e não havia mais como fazê-lo. Tais versos, com o esquema rimático tão admirado por Eugênio de Castro ABBA//ABBA//CCD//EED, usa a situação das margens de um rio como metáfora para as situações da vida em que as pessoas não valorizam o que têm, lutam pelo que parecem querer e perdem o que é de real valor. Trata-se de uma busca pelo que é realmente importante, muito presente nas classes menos favorecidas da troca do século XIX para o XX, antimaterialistas e mais espiritualistas, busca essa tratada de forma indireta, apenas sugestiva, pois na literatura da época acreditava-se que a realidade não poderia ser absolutamente retratada com fórmulas feitas, mas sim sugerida e instigada.
O Enterro de Ophelia, poema do também ilustre português Antônio Nobre, trata de outro tema romântico retomado no Simbolismo, a morte. Os primeiros versos contam que Ophelia morreu afogada em um rio e que seu enterro é silencioso, ladeado de árvores e com padres orando. Também fala de suas vestes brancas e de como irá para um convento diferente do qual ninguém retorna, cena adornada pelo enfraquecimento do sol e chegada da lua, que agora será madrinha da mulher, pois o ar noturno expressa melhor a morte. No poema a citação dos padres, do convento e de ninfas, mostra a religiosidade simbolista, o contato racional com o espírito e a dualidade entre o físico e o metafísico. Em forma de soneto, com rimas ABAB//ABAB//CDC//EDE, usa figurações diversas para explicar esse momento fúnebre, principalmente dando vida a seres inanimados como o sol, a lua e os choupos, de forma que o sujeito vivencia e reflete profundamente sobre a morte em contraste com a vida.
Dessa forma, Eugênio de Castro, Antônio nobre e Camilo Pessanha deixam bem claro o que foi o Simbolismo, utilizando composições poéticas e carregando seus versos de musicalidade, de forma que a leitura flui de forma agradável e mais envolvente. Com suas prioridades voltadas às questões humanas da vida, da morte, sentimentos e sonhos, utilizando artimanhas sintáticas e despertando os sentidos humanos, imortalizaram a literatura do Simbolismo em Portugal, representando o povo europeu em uma sociedade desigual e exclusiva, que buscava sobreviver à euforia tecnológica materialista e que se opôs ao estilo pouco delicado e excessivamente objetivo dos movimentos artísticos anteriores. Dessa forma o Simbolismo foi a voz dos oprimidos de uma época injusta, foi a voz do coração apaixonado, do deprimido e, pode-se dizer, a voz do espírito que havia sido esquecido e de todo o universo em contato poético com o ser humano.






Referências

OLIVEIRA, Iranilso Buriti de. Romances de História, História de Romances: o texto literário e os sues usos no cotidiano escolar universitário. 2010. Disponível em <http://www.ch.ufcg.edu.br/arius/01_revistas/v16n1-2/03_arius_v16_n1-2mh_01_ romances_de_história_historia_de_romances.pdf>. Acesso em 17 de outubro de 2013.
LONDERO, Maria Isabel. Entrecruzar de fronteiras, na obra A rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade. 2002. Disponível em: <http://w3.ufsm.br/grpesla/ revista/num3/ass07/pag01.html>. Acesso em 17 de outubro de 2013.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 27ª edição. Editora Cultrix, São Paulo, 1968.
AMOR Verdadeiro. Disponível em <http://laosdepoesia.blogspot.com.br/2010/03/ amor-verdadeiro-eugenio-de-castro.html>. Acesso em 20 de outubro de 2013.
EUGÊNIO de Castro. Disponível em <http://letraslinhas.blogspot.com.br/2011/02/ eugenio-de-castro.html>. Acesso em 20 de outubro de 2013.
ENTERRO do Ophelia. Disponível em <http://www.citador.pt/poemas/enterro-de-ophelia-antonio-nobre>. Acesso em 20 de outubro de 2013.


CREPUSCULAR. Disponível em <http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v151.txt>. Acesso em 20 de outubro de 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário